O Índice de Cobertura Patrimonial responde isso com uma divisão: o valor técnico dos seus ativos dividido pelo seu passivo total consolidado. Acima de 1, o patrimônio cobre a dívida e o caso é de reorganização. Entre 0,7 e 1, cobre com venda parcial. Abaixo de 0,7, o caso muda de natureza e isso precisa ser dito na primeira reunião.
A conta que vem antes de qualquer decisão
Quem tem dívida com bem em garantia costuma começar pela pergunta errada. A pergunta que aparece primeiro é como eu negocio com o credor. A pergunta que decide tudo é outra: o que eu tenho cobre o que eu devo.
Enquanto esse número não existe, toda decisão vira aposta. Você não sabe se está negociando de uma posição de força ou de uma posição de urgência. Não sabe se vender um pedaço resolve ou se vender um pedaço só adia. Não sabe se vale sustentar a operação por mais um ciclo ou se sustentar por mais um ciclo aumenta o buraco.
O Índice de Cobertura Patrimonial existe para tirar essa dúvida do campo da impressão e colocar num número. Ele não é um indicador de balanço, não serve para comparar empresas e não tem nada a ver com os índices de cobertura que a contabilidade usa para medir se a receita paga os juros do ano. Ele mede uma coisa só: a relação entre o que você tem, avaliado com critério técnico, e tudo o que você deve, somado de verdade.
A conta é simples. O que é difícil é levantar os dois números com honestidade.
Como se calcula o Índice de Cobertura Patrimonial, e por que o numerador engana
A fórmula do Índice de Cobertura Patrimonial é uma divisão. Em cima, o valor técnico do ativo. Embaixo, o passivo total consolidado.
O erro mais comum está em cima. As pessoas colocam no numerador o valor que têm na cabeça, que quase sempre é o valor de um bem limpo, sem restrição, vendido sem pressa, para um comprador que não descobriu nada de errado na matrícula.
Não é esse valor que entra na conta.
O valor técnico é o que o ativo vale do jeito que ele está hoje, com a restrição que ele carrega, com a documentação que ele tem e no prazo real em que ele pode ser vendido. Um imóvel rural com georreferenciamento pendente vale menos que o mesmo imóvel com georreferenciamento em ordem. Uma área com penhora averbada vale menos que a mesma área sem averbação nenhuma. Um galpão que só serve para um tipo de operação vale menos que um galpão genérico na mesma região.
Na Mingarelli Capital, esse levantamento se chama Estudo Referencial de Valor. É a leitura técnica do que o ativo representa no estado em que se encontra, e é ela que alimenta o numerador. Não substitui documento técnico com fé pública nem trabalho de profissional habilitado. É a base de cálculo para a decisão patrimonial.
Existem três descontos que quase todo mundo esquece de aplicar no numerador:
O primeiro é o desconto de restrição. Tudo que está averbado na matrícula tira valor, porque tira liquidez.
O segundo é o desconto de documentação. Cadastro Ambiental Rural, Certificado de Cadastro de Imóvel Rural, Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural e outorga de água pendentes não impedem o bem de existir, mas impedem o bem de ser vendido rápido. E o que não vende rápido vale menos.
O terceiro é o desconto de concentração. Se o seu patrimônio é uma coisa só, você não tem parte para vender. Tem tudo ou nada. Isso é uma fragilidade, e ela precisa aparecer no número.
O passivo total consolidado, que é onde a conta costuma quebrar
Se o numerador engana por otimismo, o denominador engana por falta de informação.
Passivo total consolidado não é a soma das parcelas que estão atrasadas. É tudo o que existe contra você, em todos os credores, com todos os acessórios que já correram até a data do levantamento. Isso inclui contratos que ainda estão em dia, contratos que foram renegociados e viraram outro contrato, dívida de fornecedor de insumo, dívida tributária, dívida trabalhista e aval que você deu para terceiro e esqueceu que deu.
Aval de terceiro é o item que mais aparece tarde. A pessoa levanta tudo, fecha a conta em 1,1, e três semanas depois descobre que assinou como avalista de um parente. O Índice de Cobertura Patrimonial cai para 0,84 e a rota inteira muda.
Para levantar o que existe em instituição financeira, o Banco Central mantém um serviço gratuito e oficial, o Registrato, que devolve o extrato das operações de crédito registradas no seu nome ou no da sua empresa. Ele está disponível em bcb.gov.br/cidadaniafinanceira/registrato. É o ponto de partida do denominador, não o ponto de chegada, porque dívida com fornecedor, dívida tributária e aval não aparecem lá.
Um passivo levantado pela metade produz um índice bonito e uma decisão errada.
As três leituras do Índice de Cobertura Patrimonial, e o que cada uma decide
Com os dois números na mão, a divisão dá um resultado, e esse resultado cai em uma de três faixas. Cada faixa muda a natureza do trabalho.
Acima de 1: o caso é de reorganização
O patrimônio cobre o passivo. Isso não significa que está tudo bem, significa que existe folga para trabalhar. O problema aqui costuma ser de estrutura, não de tamanho: dívida cara no lugar de dívida barata, prazo curto no lugar de prazo longo, garantia mal alocada, contratos que se atropelam.
Nessa faixa, o trabalho é reorganizar o passivo usando o próprio ativo como base, alongar o que dá para alongar e reduzir o custo do que está caro. Vender patrimônio, aqui, costuma ser a pior escolha, porque você entrega um bem definitivo para resolver um problema que era temporário.
Entre 0,7 e 1: reorganização com venda parcial
O patrimônio quase cobre. Reorganizar sozinho não fecha a conta, e vender tudo é desproporcional. A saída passa por escolher qual parte sai.
Essa escolha não é aleatória. Sai a parte que tem mais liquidez e menos importância para a geração de receita, não a parte que dá mais saudade ou a que está mais fácil de anunciar. E sai depois de organizada, porque ativo com passivo pendurado vendido do jeito que está costuma sair pelo pior número possível.
Nessa faixa, a ordem das decisões importa mais do que a negociação em si. Quem senta com o credor sem ter definido o que vai vender negocia sem saber o que pode oferecer.
Abaixo de 0,7: o caso muda de natureza
O patrimônio não cobre o passivo, e a diferença é grande demais para ser fechada com venda parcial e alongamento.
Isso é dito com todas as letras na primeira reunião, e é dito por respeito. Fingir que uma reorganização comum resolve um caso abaixo de 0,7 é vender esperança e queimar os poucos meses que ainda existem. Nessa faixa, a conversa deixa de ser sobre estruturar crédito e passa a ser sobre entender o cenário inteiro, incluindo rotas que dependem de decisão judicial e que são conduzidas por escritório de advocacia independente, contratado por você.
O nosso papel aí é dar a leitura patrimonial e financeira que o advogado vai usar. Não é opinar sobre a rota jurídica, nem dizer se você deve ou não deve pedir alguma coisa na Justiça.
Um exemplo que se repete no meu dia a dia
Os dados abaixo foram alterados e não identificam ninguém.
Recebi um produtor que tinha certeza de estar tranquilo. A fala dele foi que o patrimônio valia quase o dobro da dívida. Ele não estava mentindo, estava usando o valor que conhecia, que era o valor da terra da região, por hectare, num negócio sem pressa.
Levantamos os dois lados.
No ativo, a área principal tinha uma pendência de georreferenciamento e uma averbação antiga que ninguém tinha resolvido. Isso não tirava o bem dele, tirava a velocidade de venda. A segunda área, menor, estava limpa e era a mais líquida das duas, embora fosse a que ele menos queria vender, porque era a que a família usava.
No passivo, apareceram três contratos que ele contava e dois que ele não contava. Um deles era um aval dado para um cunhado, quatro anos antes. Outro era uma dívida tributária parcelada que ele tratava como despesa mensal e não como dívida.
O índice que ele carregava na cabeça era próximo de 1,9. O Índice de Cobertura Patrimonial real ficou em 0,82.
A diferença não estava na terra. Estava no que faltava levantar dos dois lados.
Com 0,82, ele saiu da reunião com um caminho diferente do que tinha entrado: organizar a documentação da área principal antes de mostrá-la para qualquer comprador, e colocar em venda estruturada a área menor, que era a líquida. Ele não gostou da segunda parte. Mas foi a primeira vez em dois anos que ele tomou uma decisão sabendo o tamanho real do problema.
Não existe conversa boa com credor antes de você saber esse número.
O que fazer depois de ter o Índice de Cobertura Patrimonial
O Índice de Cobertura Patrimonial não é um diagnóstico completo. Ele é o primeiro passo, e o que ele faz é dizer em qual dos três trabalhos você está.
Depois dele vem a leitura das garantias, contrato por contrato, para saber qual ativo está preso a qual credor. Vem a leitura da matrícula, para saber o que impede vender e o que impede dar em garantia. Vem a leitura da geração de receita, para saber quanto tempo a operação sustenta a estrutura atual. E vem a decisão de sequência, que é onde a maior parte dos casos se perde.
A sequência errada custa caro. Contratar três fornecedores que não conversam entre si, um para o passivo, um para o ativo e um para o crédito, produz três recomendações que se contradizem. O produtor recebe uma ordem de vender do primeiro, uma ordem de esperar do segundo e uma proposta de crédito do terceiro, e escolhe pela simpatia.
As três frentes precisam estar na mesma mesa, olhando o mesmo número.
Se você quiser entender melhor a lógica de usar o próprio patrimônio como base de uma operação estruturada, escrevi sobre isso em alavancagem patrimonial, que trata do mesmo raciocínio aplicado a quem não está em aperto financeiro.
Onde essa conta entra no Diagnóstico Patrimonial 360
O Índice de Cobertura Patrimonial é um dos componentes do Diagnóstico Patrimonial 360, que aplica o método Equação de Saída em sete passos. Ele aparece cedo no processo, porque é ele que define se os passos seguintes tratam de reorganização, de venda parcial ou de um cenário de outra natureza.
Levantar o Índice de Cobertura Patrimonial exige documento, não conversa. Matrícula atualizada, contratos, extratos e a relação completa de credores. Quem chega com essa documentação organizada encurta o trabalho pela metade.
Se você quer saber em qual das três faixas está
O Diagnóstico Patrimonial 360 começa exatamente por essa conta, com a documentação em mãos e sem promessa de resultado. Você encontra como funciona e como solicitar em Reestruturação 360.
Perguntas frequentes
Dá para calcular o índice de cobertura patrimonial sozinho?
Dá para fazer uma estimativa, e ela já ajuda. Some tudo o que você deve, em todos os credores, e divida o valor conservador do que você tem por esse total. O resultado serve para saber se você está perto de 1 ou longe de 1. É uma versão caseira do Índice de Cobertura Patrimonial, e ela erra justamente nos dois pontos a seguir. O que a estimativa caseira não pega são as restrições que derrubam o valor do ativo e os passivos que você esqueceu que existem, que são justamente os dois pontos onde a conta costuma virar.
O valor que o credor usou na garantia serve para essa conta?
Não serve como está. O valor usado no momento da contratação foi feito para outra finalidade, em outra data, com o bem em outra situação. Muita coisa mudou desde então, inclusive a existência da própria dívida averbada. Usar aquele número hoje é usar uma fotografia antiga para descrever uma cena atual.
E se eu não souber o valor exato da minha dívida?
Quase ninguém sabe de cabeça, e isso é normal. O extrato do Banco Central mostra o que está registrado em instituição financeira. O resto, fornecedor, tributo, trabalhista e aval, precisa ser levantado documento por documento. Um Índice de Cobertura Patrimonial calculado com passivo incompleto é pior do que nenhum índice, porque dá segurança falsa.
Índice de Cobertura Patrimonial abaixo de 0,7 quer dizer que eu vou perder tudo?
Não quer dizer isso. Quer dizer que o caminho não é o mesmo de quem está acima de 1, e que insistir no caminho errado gasta tempo que faz falta. Abaixo de 0,7 o trabalho envolve rotas que dependem de decisão judicial, e essas rotas são conduzidas por escritório de advocacia independente, contratado diretamente por você. O que entregamos é a leitura patrimonial e financeira que sustenta essa conversa.
Máquina, gado e safra entram no ativo dessa conta?
Entram, com peso diferente. Bem móvel e produção têm liquidez maior e valor menos estável que imóvel. Eles ajudam no numerador, mas não sustentam sozinhos um Índice de Cobertura Patrimonial, porque podem ser consumidos pela própria operação antes de virarem recurso. Imóvel é o que dá a espinha da conta.
Preciso de advogado para fazer essa conta?
Para a conta, não. Ela é patrimonial e financeira. Para qualquer discussão de contrato, de execução ou de rota judicial, sim, e o profissional é contratado diretamente por você, com contrato e honorário próprios. Nós não prestamos serviço jurídico e não opinamos sobre a estratégia processual.
Quanto tempo leva para levantar tudo isso?
Depende quase inteiramente de você, não de nós. Quem tem matrícula atualizada, contratos guardados e a relação de credores organizada fecha o levantamento rápido. Quem precisa buscar segunda via de tudo leva mais. O tempo não é do processo, é da documentação.
Aviso
A Mingarelli Capital atua em diagnóstico patrimonial, crédito estressado, estruturação de operação e intermediação de crédito como correspondente. Não presta serviço jurídico. A condução judicial e administrativa dos processos é feita por escritório de advocacia independente, contratado diretamente por você, com contrato e honorário próprios.
Toda operação está sujeita a análise, documentação e aos critérios das instituições parceiras. Não há promessa de aprovação, de acordo ou de resultado.
Não realizamos cobrança de valor antecipado para liberação de crédito ou para obtenção de acordo.
Análise inicial, sem promessa de aprovação ou de resultado.




